MAIS UM LABIRINTO

Mar 15

ENTRE OS MUROS DA ESCOLA

A França não vencia o Festival de Cannes desde 1987, quando Maurice Pialat ganhou o prêmio máximo com o obscuro “Sob o Sol da Satã” e levou uma vaia tão grande que acabou falando sua célebre frase: “se vocês não gostam de mim, também não gosto de vocês”. Um charme.

O tempo foi longo mas a escolha foi acertada. Se foram necessários mais de vinte anos para a França voltar a vencer em casa, pelo menos desta vez foi com louvor. O filme de Laurance Cantet é espetacular, embora minha primeira sensação tenha sido algo entre o déjà vu cômico e uma premonição angustiante.

Quer dizer, nem sei se é tão espetacular assim ou se sou eu que adoro o tema e o modo como o filme foi feito. Como todos sabem, François Bégaudeau escreveu um livro contando sua experiência como professor em escolas públicas da periferia de Paris. Essa premissa lembra “Ao Mestre com Carinho” e outras obras manipuladoras e lacrimogêneas. Mas aqui não há piedade não. Por parte de ninguém. Os alunos - de todas as raças, credos, cores e formas - são animais indomesticáveis, sem muita perspectiva, sem qualquer interese em qualquer coisa. O professor também não chega a ser nenhum herói, é apenas uma pessoa obstinada, mas com limites.

O livro se tornou filme com o professor-autor-do-livro fazendo o papel dele mesmo e diversos alunos interpretando personagens que levam seus próprios nomes. Isso aliado à câmera documental compõem um filme que interessantemente discute os limites entre ficção e documentário.

Em nenhum momento a câmera se afasta da escola. Você fica sem saber nada sobre a vida do professor extra muros. O mesmo vale para os alunos. E embora alguns dos problemas ali sejam tipicamente franceses (o eterno conflito com os africanos ex-colonizados, o islã etc.) consegui encontrar uma infinidade de conexões com minha própria vida de professor aqui. Há uma cena genial sobre uma mulher que fica inconformada com a decisão de um tipo de “comitê de ética educacional” que me deu calafrios só de imaginar quão próximo disso nós estamos aqui.

Você pode assistir e até discordar de mim. Vou entender. Mas eu me identifiquei com cada uma daquelas situações e confesso que foi um alívio imaginar que meus alunos não chegaram ainda àquele ponto. Ainda.

Depois da obra-prima “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, em 2007, com “Entre os Muros da Escola” o Festival de Cannes acertou de novo. Espero que não volte a decepcionar nem tão cedo.



WATCHMEN

Todo mundo sabe que não gosto muito de filme de super-herói (ainda se escreve assim? Meu Deus, livrai-me de toda e qualquer outra reforma ortográfica), mas este aqui foi tão badalado, tão cheio de recomendações e firulas que não tive como resistir. Assim, foi ao cinema numa quinta-feira à noite para me entreteter com pessoas cintilantes, heróis de caráter duvidoso e uma década de oitenta numa realidade alternativa tão pessimista quanto o triste (e ótimo) “Blade Runner”.

Gosto da estrutura do filme de modo a explicar a história de cada um dos personagens. Gosto também da abertura, que traça um panorama histórico-cultural dos Estados Unidos da década de 40 até o tempo em que o filme começa de verdade, quando Richard Nixon estaria em seu terceiro mandato (acho que isso serve meio que de consolo pelos 8 anos de Bush).

No fim das contas, gostei de tudo. A produção é mesmo muito bem realizada e tudo parece funcionar bem. Gosto até daquilo que mais foi objeto de crítica - a trilha sonora cafona e as situações meio kitch a que os personagens são submetidos. Tem até uma cena de amor onde se ouve o “Hallelujah” e que seria digna de figurar na sessão erótica do Telecine Action.

Filme de super-herói costumava acabar com alguém salvando a Terra e com a mocinha nos braços. Mas isso foi há muito tempo. Agora - e em Batman já era assim - a sensação geral é de desolamento e desesperança, mas não creio estarmos, de fato, muito longe daquilo. E sem Dr. Manhattan para botar um mínimo de ordem nas coisas.


Mar 9


Vi no sábado. Achei o cataz melhor do que a peça.

Vi no sábado. Achei o cataz melhor do que a peça.